A morte do amor
Depois de cumprir um prazo judicial, fiz uma pausa para ler os jornais e me deparei com uma matéria do Correio Braziliense intitulada "Queda tímida nos feminicídios". A reportagem, publicada em 23 de junho de 2026, informa que, entre janeiro e junho deste ano, o Brasil registrou 741 vítimas de feminicídio.
Em um cálculo rápido, ainda que não matematicamente exato, isso corresponde a uma média de aproximadamente quatro feminicídios por dia, ou um a cada seis horas. Em outras palavras, desde o momento em que um trabalhador se levanta para trabalhar, por volta das seis da manhã, até o horário do almoço, por volta do meio-dia, uma mulher terá sido assassinada. Quando esse mesmo trabalhador deixar o serviço, por volta das dezoito horas, outra mulher terá sido morta. E, enquanto ele repousa durante a noite, entre dez da noite e seis da manhã, outras duas mulheres perderão a vida.
Em termos práticos, é dormir e acordar todos os dias sabendo que outras duas mulheres não acordarão.
Confesso que fiquei profundamente impactado. Embora eu atue há anos em processos envolvendo violência doméstica e familiar — inclusive tendo trabalhado em um caso de feminicídio (e, por cautela, registro que meu cliente era inocente) —, nunca havia parado para refletir sobre a dimensão desses números. Talvez porque eles normalmente apareçam apenas como estatísticas. Mas, ao ler a reportagem, percebi que cada um daqueles 741 casos tem um rosto, uma história, uma família, sonhos interrompidos. São pessoas. E essa constatação é uma pancada na consciência de toda a sociedade.
Cada feminicídio deixa filhos órfãos, pais enlutados, famílias despedaçadas e processos judiciais que jamais conseguirão devolver a vida de quem partiu.
Embora o Ministério da Justiça e Segurança Pública tenha informado que houve uma redução de 2,5% em relação ao mesmo período de 2025, falar em 741 mortes jamais pode transmitir qualquer sensação de alívio. Não se trata apenas de números, mas de vidas interrompidas e de pessoas arrancadas do convívio daqueles que as amavam.
O próprio Ministério informou que somente no primeiro trimestre de 2026 foram registradas 399 vítimas de feminicídio, o maior número já contabilizado para um primeiro trimestre desde o início da série histórica, equivalente à média de uma mulher assassinada a cada cinco horas e vinte e cinco minutos. Em 2025, o Brasil encerrou o ano com 1.530 feminicídios, o maior número já registrado, mantendo a média aproximada de quatro mulheres assassinadas por dia.
Não há como ignorar que vivemos uma grave crise de violência de gênero. Não se trata de epidemia ou pandemia, pois não estamos diante de uma doença, mas de um gravíssimo problema social que exige enfrentamento permanente.
O feminicídio deixou de ser apenas uma qualificadora do homicídio para tornar-se crime autônomo com a entrada em vigor da Lei nº 14.994/2024, cuja pena pode alcançar quarenta anos de reclusão.
Diante de tudo isso, fico pensando se há algo que nós, meros mortais, sem poder político e munidos apenas do ordenamento jurídico e da confiança nas instituições, podemos fazer para contribuir, ainda que modestamente, para a redução desses números.
A sociedade precisa agir para que essas mortes deixem de ser registradas apenas como estatísticas invisíveis. CAPS, escolas, serviços de assistência social, órgãos de proteção, centros de referência, universidades, entidades religiosas e todos aqueles que atuam na prevenção precisam investigar as causas da violência e desenvolver ações capazes de combatê-las.
É preciso impedir que o feminicídio aconteça.
O deferimento de medidas protetivas de urgência, a rapidez das investigações, a decretação da prisão preventiva quando cabível, a celeridade do processo penal e a aplicação de penas severas são providências indispensáveis. Contudo, todas elas atuam quando a violência já existe. São remédios necessários, mas remédios curativos.
A sociedade continuará precisando desses remédios. Entretanto, necessita, com igual urgência, de verdadeiras "vacinas" contra o feminicídio.
O feminicídio representa o ponto final de uma história carregada de tragédia. Shakespeare eternizou, em Romeu e Julieta, a ideia de um amor que termina na morte. Ali não há feminicídio, mas há uma poderosa metáfora: quando o amor desaparece, resta apenas a tragédia. Nos feminicídios, infelizmente, essa tragédia deixa de ser literatura para tornar-se realidade.
Da mesma forma que uma compra e venda pressupõe necessariamente alguém que vende e alguém que compra, o feminicídio também possui dois lados: alguém que mata e alguém que morre; alguém que será sepultado ou cremado e alguém que, muito provavelmente, será preso ou até perderá a própria vida. Trata-se de uma obviedade que, paradoxalmente, esconde tudo aquilo que realmente importa compreender.
O olhar da sociedade naturalmente repousa sobre a vítima — para lamentar sua perda — e sobre o autor — para responsabilizá-lo pelo crime. Isso é justo e necessário. Mas, se o objetivo for efetivamente reduzir os feminicídios, é preciso olhar além desses dois personagens.
É necessário compreender a relação que existia entre eles. Seja uma relação heterossexual, seja homoafetiva, importa compreender como ela se desenvolveu, em qual contexto social estava inserida e, sobretudo, quais sinais foram emitidos ao longo do tempo indicando tratar-se de uma relação profundamente disfuncional.
É preciso enxergar a mulher antes que ela seja transformada em vítima e o homem antes que ele se transforme em criminoso.
Não parece razoável imaginar que alguém, de forma absolutamente repentina e sem qualquer histórico de conflitos, resolva matar a pessoa com quem dividia a vida e, muitas vezes, constituiu uma família. Não estou com isso culpando a vítima e atenuando o ato criminoso.
Ciúme patológico, comportamento controlador, machismo, dependência emocional, crença da vítima de que a violência cessará, sensação de impunidade, uso abusivo de álcool e outras drogas, dependência financeira, vergonha de denunciar, desconhecimento dos próprios direitos e da rede de proteção, abandono familiar, medo de represálias contra os filhos, entre tantos outros fatores, constituem o terreno onde a violência doméstica germina e, em alguns casos, culmina no feminicídio.
O verdadeiro enfrentamento deve concentrar esforços principalmente sobre essas causas, e não apenas sobre aquele que acabou se transformando no autor de um crime bárbaro. Eliminando-se o ambiente propício à violência, reduz-se também a possibilidade de surgimento do agressor.
Em sua consagrada obra Os Quatro Gigantes da Alma, o Professor Emílio Mira y López identifica quatro grandes forças que movem o comportamento humano: o medo, a ira, o dever e o amor.
Em muitos casos de feminicídio, a família já havia morrido muito antes da morte física de alguém. O medo tornara-se cotidiano; o dever havia sido abandonado; a ira dominava a convivência; e o amor, lentamente, fora ferido de morte.
Talvez seja justamente aí que resida a verdadeira prevenção.
Proteger pessoas enquanto integrantes de suas famílias, fortalecer vínculos saudáveis, ensinar respeito, igualdade, autocontrole, diálogo e responsabilidade afetiva talvez seja a forma mais eficaz de impedir que o amor termine na morte.
Se o feminicídio representa a morte do amor, somente o amor pode impedir o nascimento do feminicídio.
Ele é o único anticorpo capaz de proteger as famílias e a sociedade dessa tragédia.
Sergio Luiz Teixeira Braz
Advogado