Comentário do
Juremir Machado da Silva no Correio do Povo
Porto Alegre, 26 de
Setembro de 2012
Até quando vamos
endeusar a revolução farroupilha?
Postado por Juremir
em 25 de setembro de 2012 – História
Até quando?
Todo os anos eu me
pergunto: até quando?
Sim, até quando
teremos de mentir ou omitir para não incomodar os poderosos
individuais ou coletivos? Até quando teremos que tapar o sol com a
peneira para não ferir as suscetibilidades
dos que homenageiam anualmente uma “revolução” que desconhecem?
Até quando teremos
de aliviar as críticas para não ofender os que, por não terem
estudado História, acreditam que os farroupilhas
foram idealistas, abolicionistas e republicanos desde sempre?
Até quando teremos
de fazer de conta que há dúvidas consistentes sobre a terrível
traição aos negros em Porongos?
Até quando
teremos de justificar o horror com o argumento simplório de que eram os valores da época? Valores da traição, do
escravismo, da infâmia?
Até quando
fingiremos não saber que outros líderes – La Fayette, Bolívar,
Rivera – outros países – Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia – e outras rebeliões brasileiras – A Balaiada, no
Maranhão, por exemplo – foram mais
progressistas e, contrariando “valores” da época, ousaram ir aonde os farroupilhas não foram por impossibilidade
ideológica?
Até quando
a mídia terá de adular o conservadorismo e a ignorância para fidelizar sua “audiência”? Até quando deixaremos de falar que milhões de homens
sempre souberam da infâmia da
escravidão? Os escravos.
Até quando
minimizaremos o fato
de que a Farroupilha, com seu lema de
“liberdade, igualdade e humanidade”,
vendeu negros para se financiar? Até quando deixaremos de enfatizar que os farrapos prometiam liberdade aos negros
dos adversários, mas não
libertaram os seus?
Até quando daremos
pouca importância ao fato de que a Constituição farroupilha não previa a libertação
dos escravos?
Até quando
deixaremos de contar em todas as escolas que Bento Gonçalves ao
morrer, apenas dois anos depois do fim da guerra civil, deixou mais de
50 escravos aos seus herdeiros? Até
quando?
Até quando? Até
quando adularemos os admiradores de um passado que não existiu somente porque as pessoas precisam de mitos e de
razões para passar o tempo,
reunir-se e vibrar em comum?
Até quando os
folcloristas sufocarão os historiadores?
Até quando o mito
falará mais alto do que
a História? Até quando não se dirá nos jornais
que os farroupilhas foram
indenizados pelo Império com verbas secretas? Que brigaram pelo dinheiro? Que houve muita corrupção? Que Bento
Gonçalves e Neto não eram
republicanos quando começaram a rebelião? Que houve degola, sequestros, apropriação de bens alheios, execuções
sumárias, saques, desvio de
dinheiro, estupros, divisões internas por causa de tudo isso e processos judiciais?
Até quando, em nome
de uma mitologia da identidade, teremos medo de desafiar os cultivadores
da ilusão? Até quando historiadores como Décio Freitas, Mário
Maestri, Sandra Pesavento, Tau Golin, Jorge Eusébio Assumpção, Spencer Leitman e tantos outros
serão marginalizados?
Até quando nossas
crianças serão doutrinadas com cartilhas contando só meias
verdades?
Até quando a
rebelião dos proprietários será apresentada como uma revolução
de todos?
Até quando mentiremos
para nós mesmos?
Até quando precisaremos
nos alimentar dessa ilusão?
Até quando viveremos
assim?
https://www.geledes.org.br/ate-quando-vamos-endeusar-a-revolucao-farroupilha/
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